ECO-21: Estatí sticos do mundo: uni-vos

 
Rio de Janeiro,  Sexta-Feira, 19 de Dezembro de 2003 – 13:13 hs

Revista de Ecologia do Século 21

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Edição 85
Estatísticos do mundo: uni-vos!
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Hazel Henderson
Futurista e escritora
Mais de 700 estatísticos, legisladores, oficiais de governo e lideres empresariais estiveram reunidos na primeira conferencia ICONS que tratou de medir progresso sustentável, prosperidade e qualidade de vida. Precedendo essa Conferência histórica, um encontro de 600 empresários promovido pela expoente associação empresarial do Paraná e seu visionário Presidente Rodrigo Loures, Presidente da Nutrimental, uma importante empresa de alimentos no Brasil. A agenda: Negócios como Agentes de Benefício do Mundo – explorando investimentos e negócios socialmente responsáveis, co-patrocinados pelo Instituto ETHOS de Empresas e Responsabilidade Social, COPEL – Companhia Energética do Paraná e muitas outras empresas.
Esse foco em companhias socialmente responsáveis, investimentos éticos, estatísticas econômicas em revisão e contas nacionais (PIB e PNB) tem sido encorajado pelo Ministro Tarso Genro, da Secretaria Especial do Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social, cujo discurso abriu a conferencia ICONS, juntamente com o Governador do Paraná, Roberto Requião. Tarso Genro foi anteriormente Prefeito de Porto Alegre e iniciou várias inovações sociais – do Orçamento Participativo da Cidade ao Fórum Social Mundial liderado por várias ONGs, que oferece alternativas positivas para as visões do “Consenso de Washington” envolvidas no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça.
Ambas arrojadas Conferências articularam participantes de toda a América Latina, assim como da América do Norte, Europa e China. Muito impressionantes os indicadores apresentados pelos estatísticos brasileiros durante a conferencia ICONS (documentos no site www.sustentabilidade.org.br) como os de qualidade de vida do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), da Universidade de São Paulo, da Fundação Dom Cabral, do Índice de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado do Rio Grande do Sul.
Muitos institutos municipais de pesquisa foram também apresentados, incluindo indicadores de responsabilidade social da cidade de São Paulo, SEADE e o Atlas do ranking de qualidade de vida das cidades brasileiras. Curitiba, a cidade anfitriã, meca mundial do design urbano pelos seus atrativos bulevares, segunda no ranking de sistemas de transportes e vegetação depois de Florianópolis, a capital costeira do Estado de Santa Catarina.
A maioria dos participantes, enquanto usuários de estatísticas econômicas, reconheceram os problemas com as mensurações macroeconômicas como o PIB e o PNB, com agregação alta demais para poder oferecer detalhamento útil da realidade mundial. Essas mensurações “sobrevoam” um país como um avião a 15 km de altitude, para que a renda per capita mascare a pobreza, a exclusão social e a má distribuição entre as populações urbanas, rurais e regionais. Cada sessão, organizada por grupos de empresas, focalizaram na maior amplitude das questões da saúde, educação e eqüidade, assim como no “triple bottom line” (social, ambiental e econômico), na contabilidade corporativa, nas empresas, investimento e consumo socialmente responsáveis. O Conselho Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável colocou seu foco no meio ambiente e na eco-eficiência.
O Brasil sediou a Conferencia RIO’92 no Rio de Janeiro, em que mais de 170 governos assinaram a Agenda 21 para rever o PIB e o PNB, ampliando o seu escopo para contabilizar o capital humano, social e ambiental e os custos de carência e injustiça social – “externalidades” não-concebidas pelo setor privado e ignoradas pelos economistas em voga. Somente quando esses custos são “internalizados” nos balanços governamentais e corporativos é que os preços podem refletir os custos reais, para encaminhar de forma saudável e eficiente as sociedades em direção ao desenvolvimento sustentável e qualidade de vida. Por isso, o Brasil tem liderado esse processo de criação de novos indicadores. Todas essas novas atividades têm sido aceleradas pela crescente onda de crimes corporativos nos EUA.
Revelações diárias continuam a identificar fraudes, engodos em balanços financeiros e a ignorância com relação aos custos dos efeitos nocivos dessas “externalidades” na linguagem da economia.
À medida que cresce cada vez mais a crise de confiança nos mercados de capital, o líder de mercado John B. Bogle, fundador da gigante financeira americana Vanguard Group, agora examina regularmente “o que deu errado na América Corporativa” numa série de discursos reveladores (www.vanguard.com/bogle). Até mesmo o repentino surto de crescimento no PIB dos EUA para 7,2% tem vida curta, porque foi robustecido pela dívida (cortes de impostos e gastos do governo que ajudaram a inflar o déficit, refinanciamento da dívida e cartões de crédito) e 1% de juros. Enquanto isso, o déficit comercial estadunidense é de 5% do PIB – fazendo ainda despontar um enfraquecimento do dólar.
O entusiasmo de todos os participantes das duas Conferencias pode estar relacionado com o sentido de isolamento nos setores empresariais e governamentais que têm operado sob a economia convencional. Abordagens fragmentadas de disciplinas individuais criaram uma Torre de Babel conceitual, com uma inabilidade para ver os sistemas sociais como um todo e que agora requerem políticas integradas. Economistas, sociólogos, demógrafos, antropólogos, biólogos, estatísticos de saúde, especialistas em simulação e ecologistas, todos articulando interfaces e oportunidades para uma cooperação mais transdisciplinar.
Ao deixar esse banquete intelectual e seu espaço suntuoso, soube que a ICONS 2004 poderá ser sediada no Parlatino – Parlamento da América Latina, em São Paulo, em parceria com a Assembléia de Legislativa do Estado de São Paulo. Essa cidade de 16 milhões de habitantes, uma das megacidades do mundo, se equipara em tamanho a Xangai, na China. Ambas estão trabalhando para a renovação urbana, para a redução da exclusão social e da pobreza, por trabalhos decentes e ampla qualidade de vida, como foi indicado pelas apresentações na ICONS. O Professor Zhang Xin Hua, da Academia de Ciências Sociais de Xangai, descreveu os novos parques e os indicadores de qualidade de vida da cidade.
Discussões sobre mais conferências ICONS na Europa e na China atestaram o entusiasmo desses expertos inovadores com suas “câmeras” estatísticas mais amplas revelando novos panoramas sociais, epidemiológicos e ambientais.
Questões metodológicas que permearam as sessões: o que medir, como medir e que níveis – do local, municipal, corporativo ao nacional e internacional.
Valores e normas culturais subjacentes às estatísticas governamentais e à contabilidade corporativa foram ressaltados, em especial, em relatórios de corporações sob o novo “triple bottom line” envolvendo performance econômica, social e ambiental (www.gri.org)
Novas alianças foram estimuladas entre Bancos e gestores de ativos verdes, por exemplo, o Banco Real, o Banco do Brasil e o novo Índice Bovespa de governança corporativa (que supera o índice tradicional Bovespa desde sua implementação há 2 anos atrás). A Bovespa irá também lançar o novo “Índice Verde” de empresas sustentáveis similar ao “Índice de Sustentabilidade Dow Jones”, ao “FTSE 4Good” de Londres, ao “Índice estadunidense Calvin” e ao “Domini Social 400”.
O Brasil está despontando como um líder mundial em muitas dimensões além das novas estatísticas, com base em seus ativos culturais: criatividade, design, música, arte e esforços crescentes para reduzir a pobreza e criar uma democracia participativa para incluir toda a sua diversidade cidadã racial e étnica. Como foi estabelecido pelos participantes da ICONS, estatísticos e técnicos deveriam se empenhar a comunicar seus dados amplamente, como servidores das pessoas e do processo democrático.
O Brasil irá ocupar o seu lugar no Conselho de Segurança da ONU em Janeiro de 2004. Eu espero que o novo Brasil, sob a condução do Presidente Lula, continue sua liderança na articulação de caminhos pacíficos por um desenvolvimento humano e por uma qualidade de vida mais sustentável. Essa nova revolução silenciosa de estatísticos estará desempenhando um papel-chave nessa grande transição. ——————————– Hazel Henderson é autora, dentre outros livros, de “Além da Globalização”. Parceira do Calvert Group na criação dos Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson www.calvert-henderson.com.
Participou, em Curitiba,das conferências ICONS – Indicadores de Sustentabilidade e Qualidade de Vida e BOWB – Liderança para a Vida e para a Prosperidade Sustentável. Tradução de Rosa Alegria, representante no Brasil de Hazel Henderson.
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